Também nós, em Portugal, tivemos não UMA, mas DUAS guerras dos tronos




Foram guerras à séria pelo trono e, tanto numa "guerra do trono" como na outra "guerra do trono", um irmão roubou o trono ao outro.

No primeiro caso, foi roubado o trono e raptada a rainha e, no segundo caso, foi roubado o trono e a rainha teve de se casar com o novo rei que roubou o trono ao irmão e era seu cunhado! Confuso?! Vamos já explicar!

Em Portugal, quando temos guerras de tronos, temo-las de verdade e com tudo a que temos direito . Guerra dos tronos que se preza tem mesmo luta pelo trono.

A primeira guerra dos tronos à portuguesa aconteceu no século 13, quando Afonso III roubou o trono ao irmão, o rei D. Sancho II, e simulou o rapto da rainha, sua cunhada, conivente com todo o “complô”.

A segunda guerra dos tronos, já contamos a seguir.

Para já, vamos trocar esta 1ª guerra dos tronos por miúdos!

Dois reis, um trono e uma rainha raptada.


D. Sancho II - D. Mécia de Haro - D. Afonso III

Primeira guerra dos tronos à portuguesa

O trono roubado e a rainha raptada

Ocupado com as lutas contra os mouros e pouco hábil para a governação, D. Sancho II (1209-1248) deixou o país ao abandono . A justiça não funcionava, as mortes, os roubos e os assaltos eram constantes, o povo empobrecia, a nobreza estava insatisfeita e o clero, descontente, acabou por fazer chegar ao Papa o estado do reino.

Após vários avisos do Papado para que D. Sancho II tomasse adequadamente as rédeas do País, sem resultados, começou a delinear-se uma outra estratégia. Excomungar e retirar D. Sancho II do trono e dar a coroa ao irmão , D. Afonso. Este vivia há muitos anos em França, totalmente integrado na corte desse país, onde se casara e vivia bem-sucedido com o título de Conde de Bolonha.

Sem mais demoras, pressionado pelas conspirações da nobreza, do clero e do próprio D. Afonso, o Papa Inocêncio IV declarou que os portugueses já não deviam obediência a D. Sancho II, anulou o casamento com a rainha, D. Mécia, ordenou que se separassem e chamou D. Afonso para ocupar o trono. Este aumentou a intriga junto do Papa e rumou a Portugal com poderes reforçados, largando para trás a sua mulher e o estatuto que conquistara na corte francesa.

D. Sancho não acatou as ordens da Santa Sé e recusou separar-se de D. Mécia, pela qual nutria um amor enfeitiçado . Manteve uma luta com o irmão, de 1245 a 1248, mas perdeu esta guerra no dia em que lhe raptaram a mulher, com a possível conivência desta, que se passou para o lado do cunhado.




Louco, D. Sancho pôs-se a caminho para salvar a mulher do rapto, deixando o caminho aberto ao irmão Afonso e o trono vazio. Enquanto isto, Afonso ter-se-á dirigido, com as suas tropas, para o castelo do rei, seu irmão, e ocupou-lhe o trono.

Deposto, abandonado e humilhado, D. Sancho retirou-se para Toledo, para o exílio, onde morreu em 1248. Apenas com a morte de D. Sancho II passou D. Afonso a denominar-se Afonso III (1248-1279).



D. Afonso III ganhou esta guerra dos tronos!



A segunda guerra dos tronos à portuguesa aconteceu no século 17, quando Pedro II roubou o trono ao irmão, o rei D. Afonso VI. E roubou-lhe ainda literalmente a mulher, a rainha D. Maria Francisca de Saboia, sua cunhada, totalmente conivente com toda esta conspiração.

Vamos esmiuçar a 2ª guerra dos tronos em Portugal.

O rei que arrebatou a coroa ao irmão e lhe roubou a mulher

Este foi provavelmente um dos mais escandalosos e desonrados episódios da História de Portugal.

D. Afonso VI (1643-1683) tornou-se rei de Portugal devido à morte prematura do seu irmão mais velho, D. Teodósio, filho primogénito de D. João IV e de D. Luísa de Gusmão.

Para além de impreparado para as práticas da governação, pelo facto de a coroa não lhe ter sido destinada primeiramente (D. Afonso era o sexto filho do casal régio), sofrera este infante, entre os três e os quatro anos, de uma doença que o veio a marcar física e mentalmente para o resto da vida.

«Apanhado» do lado direito do corpo, padecia ainda de defeitos que o impediam de ter relacionamentos íntimos. Ainda assim e chegada a hora, foi chamado a casar-se com a noiva escolhida pelo reino, a francesa D. Maria Francisca de Saboia. Casaram-se no verão de 1666, mas o enlace viu os dias contados. O permanente desinteresse do rei e a sua fuga constante do leito da mulher aproximou a rainha do cunhado, D. Pedro, irmão do rei, iniciando-se possivelmente um relacionamento secreto entre eles.

Quinze meses após o casamento com D. Afonso VI, a rainha fugiu do palácio e refugiou-se no Convento da Esperança, alegando publicamente que o marido ainda não consumara o casamento. A partir do convento, endereçou à Relação Eclesiástica de Lisboa o pedido de anulação do casamento alegando a não consumação do matrimónio.

Em simultâneo, o infante D. Pedro e os seus apoiantes urdiam um plano para afastar D. Afonso VI do trono, com o principal fundamento da não consumação do enlace real e a consequente falta de sucessão que devia legitimar a deposição do rei.

Ágil, o infante D. Pedro disponibilizara-se de imediato para substituir o irmão no trono de Portugal.

Para se provar toda esta tese, devassou-se por completo a vida íntima do rei, com direito a uma extensa lista de testemunhos de barregãs, fidalgas e outras mulheres que descreveram ao pormenor, de forma totalmente pública, as deficiências genitais e a incapacidade do rei.


D. Afonso VI - D. Maria Francisca de Saboia - D. Pedro II



Importava anular o matrimónio e depor o rei para que rapidamente se tratasse do casamento de D. Maria Francisca com o cunhado D. Pedro, futuro soberano. Resolvia-se a questão do relacionamento já existente entre D. Maria Francisca e o cunhado e a não devolução do dote a França, caso a rainha voltasse ao seu país, já que os cofres portugueses estavam vazios e impossibilitados de cumprir este reembolso.

Em março de 1668, obteve-se finalmente a nulidade do casamento entre D. Afonso VI e D. Maria Francisca.

Dias depois, a 2 de abril do mesmo ano, os ex-cunhados passavam a marido e mulher. No início de janeiro nasceu a primeira e única filha do casal.

D. Afonso VI, destronado, só e humilhado, foi desterrado para Angra, na ilha Terceira, em 1669, fechado no forte de São João Baptista. Cinco anos depois foi transferido para o Palácio de Sintra, onde viveu confinado às quatro paredes de um quarto exíguo. Veio a morrer em 1683, ensandecido, a meio de uma missa. Apenas nesta altura o infante regente se passou a intitular D. Pedro II, rei de Portugal.

D. Pedro II ganhou a 2ª guerra dos tronos portuguesa.


  • Partilha:

Top