Sabias que um santo do seculo 16 é hoje considerado um empresário modelo?

Teresa Lage

Num recente artigo no Financial Times, Paulo Almeida da McDonough School of Business conta-nos como é que, há 500 anos, Santo Inácio de Loyola, o fundador dos Jesuítas, nos mostrou como dirigir uma empresa global!

Foi em 2013, quando o Papa Francisco se tornou o primeiro papa jesuíta que a sua eleição e a sua maneira de agir, diferente das dos seus antecessores, chamaram a atenção de muito mais gente para a ordem religiosa a que pertencia, a Companhia de Jesus, fundada em 1540 por Santo Inácio de Loyola.

Um santo pode parecer uma fonte de inspiração estranha para os gestores atuais, mas, segundo Paulo Almeida da McDonough School of Business, 350 anos antes do primeiro MBA, Santo Inácio foi um verdadeiro empresário modelo, mostrando ao mundo como se deve gerir uma multinacional. Com o seu espírito empreendedor e capacidade de gestão, o fundador dos jesuítas conseguiu criar uma vasta organização que, há 500 anos, cumpre a sua missão, com relevância e modernidade

Todos os líderes sabem como é importante dar o exemplo e estar sempre em contacto com as bases. Santo Inácio nasceu em Espanha num “berço de ouro” e passou a sua juventude no que, no século 16, era o meio equivalente ao jet set atual. No entanto, aos 30 anos, Inácio converteu-se, deixou para trás a sua vida fútil de menino rico e passou a viver com os mais pobres e a sobreviver de esmolas. Hoje admiramos o chefe que almoça com os seus subalternos e ficamos impressionados com as imagens do Papa Francisco sempre perto dos mais necessitados.

A humildade defendida pelos jesuítas gera confiança. Numa época de hierarquias e lideranças fortes, Santo Inácio delegou responsabilidades. Percebeu também que era através de uma gestão partilhada que se promovia o talento e que liderar não era apenas promover uma ideia, mas inspirar os outros a segui-la e a executá-la.

Hoje, sabemos que as organizações precisam de partilhar a sua missão e a sua cultura para criar e executar a sua estratégia . Santo Inácio pôs tudo isto em prática. Através da criação dos exercícios espirituais que desenvolveu e ainda hoje são praticados, ajudou os jesuítas a compreenderem quem eram e qual era a sua missão. São as estruturas, sistemas e processos que definem as organizações e o que elas fazem melhor. Santo Inácio definiu ao pormenor o modo como a Companhia de Jesus deveria funcionar. Criou regras, sem esquecer ninguém desde os seminaristas, aos mais velhos, ensinou como gerir a organização e formar pessoas, dando-lhes, no entanto, flexibilidade para estruturarem as sua vidas. Encorajou o autoconhecimento, como hoje encorajamos as pessoas a conhecerem os seus pontos fortes e fracos, mas também deixou muito à descrição dos decisores no local, combinando a consistência global com a flexibilidade local

Ao fundar a primeira escola jesuíta em Goa, sem armas nem dinheiro, S. Francisco Xavier, precisou de muita coragem e de encarnar verdadeiramente os ideais jesuítas para conseguir fazer a diferença de um modo positivo, num mundo completamente hostil.

Sem a tecnologia atual, nem reuniões de empresa, o fundador dos jesuítas conseguiu criar uma comunidade global com os mesmos objetivos e valores conseguindo que qualquer padre jesuíta, do Japão ao Brasil, sem ligação direta à sede em Roma, fosse guiado pelo mesmo sentido de missão.

Os princípios de Santo Inácio de Loyola inspiraram gerações de líderes religiosos, educadores e estudantes mas podem inspirar também gestores. Os seus princípios e práticas sobreviveram 5 séculos e orientam ainda uma complexa organização multinacional que gere 360 colégios e 175 universidades em todo o mundo, além de organizações de saúde e de assistência a refugiados. Guiada pelos princípios de Santo Inácio, a Companhia de Jesus tem feito e continua a fazer um trabalho importante para melhorar o nosso mundo.

Teresa Lage

Trailer do filme do norte-americano Martin Scorsese "Silêncio" de Janeiro de 2017- um filme que o realizador esperou quase 20 anos para concretizar, acompanha os padres jesuítas portugueses perseguidos durante a missão no Japão, no século 17.