Porque é que gostamos de uma boa cusquice?

BISBILHOTAR É UMA CARACTERÍTICA QUE ESTÁ NA ESSÊNCIA DO SER HUMANO E TEM UMA EXPLICAÇÃO CIENTÍFICA

Ana Margarida Oliveira


Quem nunca? Esta é a pergunta 😊 Quem nunca contou uma boa cusquice ou gosta de ouvir algumas? Uns com uma forte tendência para a coscuvilhice, outros com menos, parece certo que todo o ser humano, com graus e intensidades diferentes, aprecia uma boa cusquice! Contada ou ouvida.


Sucede que este “gosto” pela cusquice tem uma razão. Somos descendentes de pessoas que foram boas nisto, porque nos tempos pré-históricos, quem se fascinava com a vida dos outros era bem-sucedido. E quem o disse foi o professor de psicologia do Knox College, no Illinois, Frank McAndrew, à CNN.


Este especialista em comportamento humano defende a teoria de que se prosperava, em tempos muito antigos – viajando mesmo até ao tempo das cavernas – porque era fundamental saber o que se passava com os outros humanos. Na posse destes “dados” sobre outras tribos, por exemplo, sabia-se quem tinha poder, quem dominava, quem tinha acesso a instrumentos ou ao fogo, entre outras situações.


Portanto, a “necessidade” de bisbilhotar não começou por ser, a acreditar nesta perspetiva, negativa ou pejorativa como o é, hoje, entendido o coscuvilhar, ou seja, falar de alguém sem ser na sua presença. Aquele que sabia muito sobre os outros era considerado socialmente importante.



Diz ainda um outro estudo, da Universidade da Califórnia, que uma pessoa gasta em média 52 minutos diários a bisbilhotar. Se bem que, prossegue esta linha de estudo, falar sobre os outros pode trazer conhecimento sobre a pessoa, já que “mexericar” não é sempre necessariamente dizer mal, pode ser só falar sobre alguém.


Parece, então, segundo os vários estudos, que fofocar faz de facto parte da condição humana e que, de alguma forma, o herdámos dos nossos longínquos antepassados. Por outro lado, é também consensual que nem todas as cusquices são más ou negativas. Muitas delas avaliam os outros, de quem se fala, positivamente. E há boas conversas sobre pessoas, porque nem todas os mexericos dão origem a críticas ou julgamentos negativos.



Temos tendência para falar, mal ou bem, de pessoas a quem os investigadores, nesta área, chamam “socialmente importantes” para nós e podem ser amigos, familiares, colegas de trabalho ou inimigos.


É também nesta senda que nos interessamos pelos gossips dos famosos. Eles assumem, ainda que nunca os conheçamos na vida, um papel “socialmente importante” porque acionam, no nosso cérebro, o mesmo impulso de saber e de “falar sobre” que as pessoas que conhecemos e com quem nos relacionamos desencadeiam em nós. Os famosos são, acredita o nosso cérebro, conhecidos para nós.



Em resumo, o ato da cusquice começou por ser uma luta pela sobrevivência e um catalisador de poder. Hoje, falar dos outros e fomentar os mexericos não é bem assim e é até capaz de nos tirar “poder” social.

Falar bem dos outros, de forma verdadeira e honesta, recomenda-se!


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